Entrevista com Administrador Delegado

A LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, criada no dia 14 de Maio de 1980, celebra, no ano em curso, o trigésimo quinto aniversário com um horizonte de crescimento que inclui a aquisição de três novas aeronaves, encomendadas à Boeing e que serão entregues a partir de 2016. Paralelamente, a partir deste ano (2015), reforçará a frota com outras duas aeronaves. As aquisições têm em vista dar consistência à expansão da rede de voos da companhia que abrange a abertura de destinos intercontinentais. Estas e outras apostas que constam do Plano Estratégico 2014 – 2018 da empresa, foram temas da entrevista com o Administrador Delegado da companhia, Dr. Iacumba Ali Aiuba.

Administrador Delegado LAM - Iacumba Aiuba

Texto: Norberto Mucopa , Fotografia: Mauro Vombe

Senhor Administrador, neste momento de celebração dos 35 anos, pode dizer de que forma a LAM encara o futuro?

Em 2014 iniciámos um novo ciclo no nosso processo de Planeamento Estratégico. No nosso Plano Estratégico, para o quinquénio 2014 -2018, estão definidas com clareza as áreas onde iremos intervir com vigor de forma a nos mantermos competitivos.

Estamos a investir em nova tecnologia, tanto em equipamentos, assim como no capital humano. A indústria de aviação é de capital intensivo e com margens de retorno mínimas, daí que temos de concentrar a nossa atenção na obtenção de receita e no controlo de custos.

É tendo em conta estes desafios, que podemos afirmar que a LAM encara o futuro com muito optimismo.

 

Quais são as linhas de intervenção da LAM no mercado, considerando os desafios e exigências crescentes, ainda que possamos agrupá-los pelos respectivos segmentos como são os casos do doméstico, regional e intercontinental?

A expansão no mercado é um dos objectivos fundamentais da LAM. Tendo em consideração esta ambição, entendemos que, no mercado doméstico, a nossa intervenção passa necessariamente pela consolidação da operação com o aumento da frequência de voos para todos os destinos e a abertura de novas rotas. Desta forma assinalamos o nosso crescimento que recentemente teve uma etapa significativa, com o início de voos para Nacala, e teremos outras novidades futuramente. Pretendemos melhorar continuamente a qualidade do serviço que prestamos aos nossos clientes e a um preço competitivo. É evidente que temos muitos desafios pela frente. Estamos confiantes num futuro bastante promissor.

No serviço regional, apostamos que até 2018 possamos voar para maior parte das cidades capitais dos países da SADC. Queremos ser parte activa do processo de integração regional.

No segmento intercontinental, mantemos a nossa ambição de reintrodução de voos para a Europa e início de voos para a Ásia, Médio Oriente e América do Sul.

 

O país tem uma das economias que mais cresce em África e tendencialmente é um destino de oportunidades para o investimento, o que por si só é um factor dinamizador do tráfego. De que forma a LAM sente os efeitos da conjuntura económica e que providências tem tomado?

Estudos realizados por diversas fontes indicam claramente que nos últimos anos, o país tem sido um destino privilegiado do investimento estrangeiro, o que, paralelamente a isso, tem proporcionado o crescimento substancial do tráfego. Para respondermos cabalmente a esta demanda, a LAM tem vindo a trabalhar de modo a posicionar-se melhor no mercado, mediante o reforço da sua capacidade de resposta e transporte. É dentro desta estratégia de capacitação da frota que em 2016 iremos começar a receber as novas aeronaves Boeing 737 NG. Encomendámos três unidades. Paralelamente, iremos integrar, a partir deste ano, mais duas aeronaves de capacidade média.

Estamos empenhados em elevar a qualidade do serviço que prestamos aos nossos clientes, através da introdução de novas tecnologias e boas práticas que a indústria oferece.

 

De há uns anos para cá, as tendências da aviação têm sido marcadas por uma acção cada vez mais notória de alianças. Como é que a LAM interioriza este conceito?

Já estamos a trabalhar com possíveis parceiros, com a intenção de nos estabelecermos dentro de uma das alianças. Porém, ainda há um longo caminho a percorrer para que este sonho seja concretizado. Como pode imaginar, a aliança é um clube e, para se ser membro, há certos critérios que devem ser observados. Podemos citar como exemplos, em termos de critérios, o número de passageiros que uma companhia transporta, a rede de distribuição do tráfego, entre outros. Com o crescimento da economia de Moçambique, estamos cientes de que iremos atingir os volumes requeridos, para que possamos estar integrados numa aliança.

 

A indústria de aviação tem uma dinâmica de inovação contínua e, ao que consta dos registos, a LAM passou por várias fases de transformação. Neste momento quais são os pilares do seu processo de modernização?

O processo de modernização da LAM está assente em quatro pilares, nomeadamente: Conforto (Padronização dos serviços em terra e a bordo, Consolidação do Programa de Fidelização de clientes e introdução do Customer Relations Management); Credibilidade (aumento de segurança e padronização dos serviços em toda a cadeia de valor, consolidando os certificados da ISO e IOSA e); Conveniência (cobertura geográfica, oferta de frequências com um horário conveniente para os passageiros); e Escolha (colocação no mercado de aeronaves que estejam de acordo com a expectativa dos clientes, introdução de sistemas electrónicos que facilitam a compra de bilhetes e introdução de entretenimento a bordo, assim como nas lojas de vendas).

Para que estes pilares tenham uma base de sustentação sólida, estamos a investir em novas aeronaves, no aprimoramento dos nossos processos, podendo-se destacar o desenvolvimento do capital humano. Estamos cientes de que as novas tecnologias que estamos a introduzir só terão o efeito desejado, se os colaboradores da LAM estiverem devidamente treinados e apostarmos na mudança.

 

A propósito das formações, sabe-se que 2015 é um ano crucial para o uso do SMSSafety Management System. Quais são as etapas que estão a ser observadas?

A LAM considera a segurança como sendo uma das suas principais prioridades. O SMS -Safety Management System - também conhecido como “sistema de gestão de segurança operacional” - visa fazer com que todos os colaboradores sejam parte activa do processo de gestão, conhecendo, identificando e reportando os diversos factores que impactam a nossa operação. Trata-se de uma nova abordagem de segurança operacional na indústria, obrigatória, cujo objectivo é permitir que a empresa conheça os vários perigos e adopte medidas preventivas para os mitigar ou eliminá-los.

Dada a importância e obrigatoriedade da implementação do SMS nas companhias aéreas que são membros da IATA – International Air Transport Association, a LAM decidiu incluir esta acção no seu Plano Estratégico em vigor, tendo iniciado com a formação de três formadores internos que estão actualmente a municiar os outros trabalhadores de conhecimentos neste domínio, numa matriz que já ultrapassou 60 por cento da massa laboral.

 

Em relação às áreas específicas como as de pilotos e técnicos?

Uma das componentes inerentes à logística de incorporação de novas aeronaves na frota tem a ver com a formação do pessoal que irá realizar as operações, como é o caso de pilotos e Pessoal Navegante de Cabine, bem como dos técnicos que farão a sua manutenção regular. Em relação à tripulação, está previsto para o segundo semestre deste ano o início da formação de cinco comandantes que irão migrar do Embraer 190 para o Boeing 737 NG. Neste caso, teremos uma significativa movimentação de tripulações existentes na empresa e o recrutamento de novos pilotos. Está planificada a formação de mais dois comandantes para operar o Boeing 737-500, cinco co-pilotos que vão migrar do Q400 para o Embraer 190, a contratação, no mercado nacional, de quatro comandantes para operar o Q400 e a formação de seis co-pilotos para este último modelo de aeronaves. Como se pode perceber, é um processo complexo e, ainda assim, pelo nosso compromisso, como companhia de bandeira, damos primazia à formação do cidadão moçambicano. Temos privilegiado a captação de talentos, absorvendo os jovens nacionais que, por iniciativa das próprias famílias, têm apostado em cursar pilotagem. É nesta perspectiva que incentivamos a banca a contribuir para a formação, existindo já uma entidade que concede crédito específico para a formação de pilotos. Nos casos em que temos maior procura e pouca oferta do mercado, assumimos os custos da formação, seleccionando os candidatos entre os jovens que cumprem o Serviço Militar Obrigatório, na base da parceria com o Ministério da Defesa Nacional. Em relação ao Pessoal Navegante de Cabine, estabelecemos uma prioridade de formação que se iniciou com um grupo de 30 profissionais a serem graduados em breve, enquanto o outro curso para 20 PNC, decorrerá até ao próximo ano, de modo a que se mantenha a disponibilidade de tripulação comercial e mínima de segurança operacional, mesmo com a incorporação das novas aeronaves.

Para a área técnica, planificamos o recrutamento de 20 novos profissionais, entre técnicos de manutenção de aeronaves, oficinas aeronáuticas, engenharia e outros serviços de apoio à manutenção de aeronaves. A perespectiva é de reforçar o quadro de pessoal existente, como também garantir a viabilidade do Plano de Sucessão, no âmbito da aquisição de mais aeronaves. Estão salvaguardados os cursos Ab-Initios para técnicos e engenheiros recém-admitidos e outras formações específicas de aeronaves, para além do On-The-Job-Training.

Estamos, igualmente, a tomar providências para o salto qualitativo do desempenho dos colaboradores no global, estando em curso acções de formação para o desenvolvimento do capital humano, a implementação do projecto de Assessment Centre (projecto de avaliação de competências das Chefias intermédias) e a efectivação do Sistema de Avaliação de Desempenho.

 

Que imagem os gestores, trabalhadores e accionistas perspectivam para a LAM a curto, médio e longo prazos?

Estamos comprometidos para que, a curto prazo, possamos ter uma LAM renovada. Queremos fazer coincidir a introdução da nova imagem da LAM com a chegada das novas aeronaves B737 NG, em 2016. Para o efeito, estamos a prestar maior atenção ao treinamento dos nossos colaboradores no reposicionamento da marca, de modo a que possam responder cabalmente às mudanças que apostamos introduzir.

No que diz respeito aos serviços, estamos a fazer inovações, com o objectivo de estarmos mais perto dos nossos clientes.

 

Qual é o conceito da LAM em relação aos passageiros?

Nós queremos transmitir aos nossos passageiros um conceito de segurança, conforto e qualidade, em toda a cadeia de valor. Estamos a investir continuamente para a manutenção das certificações em Segurança e Qualidade. Queremos estar perto dos nossos clientes em todos os momentos. Por isso, estamos a introduzir inovações, que são a característica da indústria de aviação civil. Até ao final de 2015,  iremos introduzir um novo sistema de reservas e aceitação de passageiros no check-in. Hoje, já é possível fazer a aquisição de bilhetes usando os sistemas electrónicos de pagamento, graças às parcerias que estamos a estabelecer com os provedores de serviços.

Nós, estamos cientes de que, com a introdução da nova frota, a partir de 2016, iremos melhorar significativamente a qualidade do serviço que oferecemos aos nossos passageiros, tanto em termos do produto, assim como da nossa operação. Teremos maior disponibilidade de aeronaves, o que nos irá permitir aumentar as frequências que oferecemos em cada destino, assim como as possibilidades de explorarmos novas rotas.

 

Podemos ficar com uma ideia de como é que a LAM cresceu ao longo dos seus 35 anos?

Ao longo dos trinta e cinco anos da sua existência, a LAM teve um crescimento quantitativo e qualitativo. Para falarmos dos trinta e cinco anos da LAM, temos de fazer uma retrospectiva sobre o seu crescimento. Em todos os momentos históricos do nosso país, a LAM serviu como elo de ligação dos moçambicanos. É evidente que, durante estes trinta e cinco anos, a empresa teve vários momentos, que foram o resultado da conjuntura económica do país.

Com a liberalização do mercado de aviação civil em Moçambique, outras companhias entraram no mercado nacional, o que estimulou a LAM a inovar, para se manter competitiva.

Se nos recordarmos, havia destinos domésticos para os quais a LAM realizava apenas um voo por semana e, quando o avião aterrava, era o evento da semana. A LAM transportava os passageiros, o jornal, a revista, o correio, etc. A LAM nesse tempo tinha uma função meramente social, responsabilidade que continuará por mais anos, porque a companhia tem a consciência de que deve estar muito próximo das necessidades dos moçambicanos.

Nos últimos anos, a LAM deu um salto qualitativo e tem estado a acompanhar o crescimento da economia nacional. É evidente que ainda temos muitos desafios pela frente.

Iacumba Ali Aiuba

Administrador Delegado
LAM SA